Artigo de HematOncologia®
Nº 5 / Abril de 2009
10 Hematologia – uma especialidade em extinçãoPassado, presente e futuro, segundo a Dr.ª Isabel Ribeiro.
A especialidade de Hematologia foi instituída como tal no nosso País há cerca de 30 anos pela mão de grandes nomes da Medicina de então, como os Dr. Valadas Preto e Prof. Ducla Soares, em Lisboa, Drs. Freitas Tavares e Tamagnini, em Coimbra, Drs. Benvindo Justiça e Rosa Araújo, no Porto, e ainda muitos outros.
O curriculum inicial tinha como objectivo essencial proporcionar uma sólida formação na prática da Hematologia Clínica, baseada em bons conhecimentos de Medicina Interna e com estágios semestrais de Hematologia Laboratorial e de Imunohemoterapia. Recordar-se-ão os mais veteranos das discussões na altura sobre a separação ou não da Imunohemoterapia e da Hematologia Clínica.
A Hematologia atraiu desde o início os jovens médicos pela sua novidade e potencial, uma vez que se antevia um rápido desenvolvimento de novas e fascinantes técnicas, importantes para o diagnóstico e caracterização das doenças hematológicas, bem como de novas perspectivas no tratamento de patologias até então quase sempre fatais.
De facto, tal veio a acontecer nos anos seguintes, particularmente com a evolução da Imunologia e da Genética, que permitiram gradualmente a caracterização, de forma mais precisa, das diferentes doenças, estabelecendo tipos e subtipos particulares com diferentes prognósticos e com indicações terapêuticas diversas.
Da mesma forma, a abordagem terapêutica evoluiu de forma significativa, inicialmente com o desenvolvimento de múltiplos fármacos com características citoredutoras e mais recentemente com uma explosão de novas modalidades terapêuticas, desde o uso de anticorpos monoclonais a outras, como a utilização de fármacos que interferem no metabolismo celular ou na imunomodulação, bem como nas alterações citogenéticas em determinadas doenças.
A Ciência não tem, pois, desiludido os que a ela se dedicaram, embora nem sempre um melhor conhecimento da fisiopatologia tenha sido totalmente acompanhado por um melhor resultado no tratamento de todas as patologias.
E quanto à prática clínica?
O Internato de Hematologia era inicialmente um dos mais pretendidos, como o demonstram as elevadas notas no exame de acesso dos primeiros internos.
Nos anos seguintes formaram-se vários especialistas, que puderam desenvolver a sua formação de uma forma geralmente gratificante, muitos deles frequentando estágios noutros países, o que lhes permitiu alargar conhecimentos e horizontes, na altura muito limitados no nosso País, trazendo para os seus Serviços novas técnicas e novas ideias.
Foi uma época em que sentimos como era importante a nossa actuação, podendo tratar de uma forma mais correcta as doenças hematológicas, descobrindo novos métodos e novas técnicas de diagnóstico.
Também no âmbito da investigação, e pesem embora as dificuldades e limitações que sempre se colocaram a quem quisesse desenvolver projectos nessa área, foram vários os centros que contribuíram significativamente para o conhecimento das doenças hematológicas em Portugal.
Havia, portanto, nessa altura, um grande entusiasmo na implementação desta especialidade, na criação progressiva de serviços especializados e mais tarde no aparecimento de unidades de transplante de medula. Será este ainda o espírito que anima os hematologistas portugueses nos tempos actuais? Infelizmente, penso que não e as causas são bem conhecidas.
Nos anos 90, houve uma alteração importante no curriculum de Hematologia, com a redução do número de anos de prática hematológica (de três para dois) e com a introdução de estágios obrigatórios em Transplante Medular e em Pediatria Hematológica.
Esta alteração não foi consensual, particularmente por reduzir o número de anos no Serviço de Hematologia, e julgo que deveria ser repensada urgentemente.
Numa altura em que os avanços a nível da Genética, da Imunologia e da Biologia Celular trazem novas e importantes perspectivas a nível da investigação, e em que, por outro lado, se reformulam conceitos no tratamento destas doenças, julgo que o actual curriculum é demasiado rígido e ao mesmo tempo dispersante, não permitindo o desenvolvimento das capacidades individuais de cada interno.
Igualmente em discussão estará a possibilidade de se juntarem as especialidades de Hematologia e de Imunohemoterapia, à semelhança do que acontece noutros países, uniformizando Curricula e facilitando a possibilidade de emprego dentro do espaço europeu.
Em minha opinião, deveria existir uma base comum – Medicina Interna, Hematologia Clínica e Laboratório –, devendo o restante tempo ser opcional, de acordo com as apetências e perspectivas de trabalho futuro de cada interno.
Deveria, por outro lado, ser incentivada e apoiada a possibilidade de desenvolver projectos de investigação, sob pena de continuarmos os parentes pobres numa Europa cada vez mais aberta e plural, numa era de fascinante desenvolvimento tecnológico e científico.
Enquanto jovens investigadores portugueses têm, nos últimos anos, mostrado uma grande capacidade e rigor, apresentando descobertas de grande interesse a nível internacional, o mesmo não tem acontecido em Medicina.
De facto, a prática da Medicina em Portugal, e a Hematologia não é excepção, tem-se revelado, na maioria dos casos, desgastante e desmotivante.
A enorme sobrecarga de trabalho e a redução do número de profissionais, a quem raramente foi dada a possibilidade de se desenvolverem numa área da sua preferência, pois, no entender das administrações (de saúde, hospitalares ou dos próprios serviços), todos devem fazer tudo, inclusive serviço na Urgência Geral, levam à conhecida situação de burn out, com as consequências que sabemos.
No caso da Hematologia essa situação é ainda mais sentida e sofrida. A relação médico-doente é talvez aqui mais forte e, por isso, também mais desgastante; as doenças são graves, o curso clínico é geralmente longo e imprevisível, com recaídas e remissões frequentes, e a ligação que se estabelece entre o doente, seus familiares e os profissionais de saúde ultrapassa o episódio da doença – o doente hematológico é nosso doente para sempre, enquanto viver!
E se esta relação é só por si gratificante, justificando plenamente a nossa escolha em sermos médicos, não deixa de ser altamente exigente e com custos psicológicos importantes.
A pressão clínica diária é demasiada, nem todos aguentam e o abandono é frequente. E ao mesmo tempo que a incidência de algumas doenças hematológicas tem vindo a aumentar nos últimos anos, bem como a esperança de vida e, esperamos, o acesso à Saúde, não se tem incentivado a partilha da assistência hematológica com outros clínicos, nomeadamente com os Médicos de Família.
Por outro lado, o número de vagas abertas anualmente é reduzido, obedecendo a critérios que não são perceptíveis pela maioria de nós. As opções profissionais são também limitadas, não permitindo que possam existir simultaneamente projectos de investigação ou outros, e actualmente a especialidade é menos atraente, sendo escolhidas em primeiro lugar especialidades, talvez mais “técnicas”, que permitem um maior número de alternativas profissionais.
No que diz respeito aos hematologistas mais seniores, como eu própria, anos de sucessivas esperanças e desilusões na criação de serviços adequados e na implementação de carreiras gratificantes levam a que muitos optem pela reforma antecipada.
São estes factos que determinam a preocupante situação que a nossa especialidade atravessa actualmente e que, a não serem rapidamente analisados e resolvidos, põem em causa o futuro da Hematologia em Portugal e a sobrevivência actual de alguns serviços de Hematologia.
E qual vai ser o futuro?
Existem actualmente 40 internos nos vários anos de Internato a nível nacional e o número de hematologistas com idade superior a 55 anos é de 42. É previsível que, a manterem-se as mesmas orientações, os jovens médicos optem por carreiras mais gratificantes e os mais velhos optem por se aposentar com as idades com que os nossos Mestres criaram esta especialidade! Quem fica? E como se sentirão e poderão trabalhar os que ficam?
Se queremos que esta especialidade, que, todos concordarão, é a mais entusiasmante, continue e se desenvolva, urge tomar decisões importantes e alterações de fundo que a todos dizem respeito – jovens médicos, especialistas no activo e também os reformados, mas não conformados!
- Dr.ª Isabel Ribeiro