Artigo de Mundo Médico® Magazine
Nº 41 / Julho e Agosto de 2005
10 Para o Dr. João Jácome de Castro, director do Serviço de Endocrinologia do Hospital Militar Principal, o dia começa bem cedo.
«A CARREIRA MILITAR DEU-ME UM TREINO DE RIGOR, DISCIPLINA E RESPONSABILIDADE»
Texto: Cátia Jorge
Fotos: Jorge Correia Luís
Para o Dr. João Jácome de Castro, director do Serviço de Endocrinologia do Hospital Militar Principal, o dia começa bem cedo. Às sete e meia da manhã sai de casa em direcção ao hospital. Pára no caminho para beber café e ler as «gordas» do jornal, mas antes das oito já está sentado no seu gabinete. Aproveita os minutos de sossego para pôr as ideias em ordem e organizar qualquer assunto pendente, pois, às nove começa a agitação.
«Durante todo o dia, esse período é precioso, pois é o único que tenho só para mim. Gosto de chegar ao serviço antes de começar a correria do dia-a-dia, antes do telefone tocar, do movimento apertar e de iniciar a rotina esperada do hospital. Preciso desse tempo para reflectir, para ler, para fazer uns slides ou simplesmente para planear o meu dia», conta o endocrinologista.
Quando tudo corre bem e o inesperado não acontece, Jácome de Castro está em casa às 20:30 para o habitual jantar em família. À mesa reúne-se com a mulher e as duas filhas, Leonor, de 15 anos, e Matilde, de 10.
«Embora esteja disponível 24 horas por dia, como exige a minha profissão, tento sempre regressar a casa a tempo de jantar com a minha família. É nesses momentos que aproveito para estar a par do que se passa com as minhas filhas. Gosto de conversar com elas, saber quais são os seus interesses actuais e descansar como toda a gente, independentemente da profissão que exerce», explica.
Só há um dia por semana em que esta rotina é quebrada. Quando tem de deslocar-se ao consultório de Évora, o endocrinologista só chega por volta da meia-noite. É esse o dia mais longo da semana de Jácome de Castro.
RIGOR, DISCIPLINA E RESPONSABILIDADE
Há 15 anos ao serviço do Hospital Militar Principal, Jácome de Castro passou anteriormente pelo Hospital de Santa Maria, logo depois de terminar o curso, em 1987. Foi lá que fez o Internato Geral e permaneceu até 1997. Chegou a trabalhar em simultâneo nos dois hospitais. Durante 15 anos deu aulas na Faculdade de Medicina, mas depois de ser convidado para liderar o Serviço de Endocrinologia do Hospital Militar Principal, em 1998, decidiu dedicar-se inteiramente a essa tarefa.
«Tenho ideia de que quando as pessoas querem fazer muitas coisas ao mesmo tempo alguma delas acaba por ficar para trás. Não quis que isso acontecesse comigo, por isso deixei de dar aulas na Faculdade de Medicina de Lisboa.
Por outro lado, no meu serviço estamos ligados a vários projectos de investigação clínica e epidemiológica e no hospital temos também uma vertente de ensino (pré e pós-graduado), o que me faz sentir completo tanto na área clínica, no que diz respeito ao atendimento de doentes, como na área da investigação e do ensino», diz Jácome de Castro.
Quanto à carreira militar, o nosso entrevistado adianta que «foi evoluindo paralelamente com a de médico».
Depois de terminar o liceu, em 1980, o endocrinologista estava ainda indeciso em relação à profissão que pretendia seguir.
«Eu tinha três hipóteses que me agradavam bastante.
A de médico, a de militar e a de diplomata. Qualquer uma delas exige o contacto com pessoas, uma das coisas de que mais gosto. Depois de acabar o 12.º ano, entrei na Academia Militar, pois, ser Oficial de Cavalaria era também uma alternativa», sublinha.
Um ano mais tarde entrou para a Faculdade de Medicina e
foi então que mudou o rumo do seu destino.
«Hoje tenho a certeza de que fiz a escolha certa. Se me perguntassem se gostaria de mudar de profissão, eu responderia que não. Gosto muito de ser médico e adoro a Endocrinologia», avança.
Em 1989 iniciou a formação em Endocrinologia e concorreu para a categoria de médico/militar. Nos anos que se seguiram, o especialista, a par da carreira médica hospitalar, exerceu funções como militar na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, no Batalhão de Serviço de Saúde, em Setúbal, e no Regimento de Cavalaria da Guarda Nacional Republicana.
«Fui sempre fazendo os cursos militares e progredindo na carreira militar», refere.
Cumpriu uma missão em Angola relacionada com a assistência à saúde dos militares no terreno e com o levantamento de um hospital de campanha. Enquanto médico esteve também a trabalhar em Londres.
«Se não trabalhasse em Portugal gostaria de voltar a trabalhar no Reino Unido ou na Escandinávia. Gosto da organização e do rigor das instituições desses lugares», adianta.
Actualmente tenente-coronel, Jácome de Castro continua a afirmar que a carreira militar lhe deu um treino de rigor, disciplina, responsabilidade e sentido de serviço fundamentais para a profissão de médico.
UMA VISÃO ALARGADA DA MEDICINA
Para além da carreira hospitalar, onde já fez todos os concursos que existem (de interno geral a consultor), e da carreira militar, Jácome de Castro já passou por outras experiências profissionais, na direcção de um serviço de saúde, como consultor de uma multinacional farmacêutica e como assessor de um sistema de saúde.
«Penso que é útil adquirir uma experiência alargada na área da saúde. É difícil dirigir bem um serviço sem conhecermos o universo que nos rodeia», observa.
Mas é no «seu» hospital que Jácome de Castro é feliz:
«Sinto-me bem disposto quando chego todos os dias ao meu hospital. Gosto dos meus colegas e dos meus camaradas (é assim que os militares se tratam entre si) de todos os serviços.»
Se tivesse de optar por outro hospital para trabalhar em Portugal escolhia, provavelmente, os Hospitais da Universidade de Coimbra, mas «não trocaria o meu hospital por outro, nem a minha equipa», salienta Jácome de Castro, acrescentando:
«Gosto de todas as pessoas que trabalham comigo e estou satisfeito com os resultados obtidos», diz-nos, referindo a produtividade crescente do serviço nos últimos cinco anos, quer a nível assistencial, quer a nível científico, com várias dezenas de trabalhos publicados e cinco prémios nacionais ganhos, durante este período.
«PROCURO NÃO PENALIZAR A MINHA FAMÍLIA»
Entre uma vida profissional tão preenchida, Jácome de Castro deixa bem claro que procura sempre ter tempo para a família.
«Estou com a minha mulher e as minhas filhas todos os dias e procuro fazer actividades que possam dar prazer a todos.
À noite conversamos durante o jantar, às vezes vemos televisão ou um filme de que elas gostem, lemos uma revista e fazemos muitos jogos. Durante o fim-
-de-semana, tento não pensar em trabalho. Passeamos, viajamos, vamos ao cinema, enfim, fazemos tudo o que as outras famílias fazem», explica.
Tanto a Leonor como a Matilde estão bem a par do trabalho do pai. Sabem melhor do que qualquer criança ou adolescente com as suas idades o que é a diabetes, a tiróide ou a obesidade, contudo, nenhuma delas dá indícios de querer seguir as pisadas do pai, pelo menos no que diz respeito à Medicina.
«A Leonor está no 10.º ano, na área de Economia, e a Matilde só tem 10 anos, por isso, ainda tem tempo para decidir», continua.
O que o endocrinologista não dispensa são as viagens em família. Primeiro Portugal, depois a Europa, de seguida os Estados Unidos, a Austrália e o Canadá. Recentemente, regressou da Grécia, mas essa foi uma viagem profissional. A Suécia é o próximo destino em família, agendado já para este Verão.
«Durante o ano, faço entre quatro a cinco viagens em trabalho. Aí aproveito para estudar e trabalhar. Com a minha mulher e com as minhas filhas faço pelo menos uma viagem por ano», explica.
Este ano as férias já estão planeadas. Depois de passar 15 dias no Algarve e uns quantos no Norte (para descansar do calor), Jácome de Castro vai mostrar a Suécia à sua família, mas antes disso talvez dê um pulinho a Londres para apresentar a cidade à sua filha mais nova, já que a mais velha já teve oportunidade de a conhecer.
«Elas já conhecem Portugal de uma ponta à outra. Agora começam também a conhecer outros cantinhos da Europa», refere o nosso entrevistado.
França, Espanha, Londres, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Alemanha, Praga, Varsóvia, Helsínquia, Estados Unidos e Canadá são alguns dos destinos já conhecidos da sua família. Para alguns deles viajou apenas com a mulher, para outros levou também as filhas.
No tempo que passa em família, o médico tenta não pensar em trabalho:
«Procuro não penalizar a minha família. Se repararem, não tenho nada de trabalho cá em casa, os livros que tenho no meu escritório são todos para lazer, os do trabalho aqui não entram, ficam no gabinete do hospital.»
Aliás, livros é o que não falta lá em casa. Uma colecção de fósforos e outra de livros bem volumosos de cidades e países estão bem à vista na sala onde Jácome de Castro passa mais tempo.
TEJO À VISTA
Desde sempre a residir em Lisboa, Jácome de Castro mora bem próximo do trabalho.
«Costumo dizer que faço a minha vida na Estrela. Tirando o dia em que tenho de me deslocar até Évora, nunca uso o carro. De casa para o hospital, do hospital para o consultório e daí para casa novamente, ando sempre a pé», afirma.
Do terraço da sua casa, o Tejo e a margem sul enchem a paisagem. Um cantinho de Lisboa onde ainda se ouvem pássaros pela manhã e o ruído dos carros e da confusão da cidade não chega.
«Este espaço é muito agradável, principalmente para as crianças», porém, se tivesse de escolher a zona preferida da sua casa, Jácome de Castro não hesitaria:
«O corredor. Pela luz, pelo comprimento, e pelo espaço, em si. Gosto também da sala, onde costumo ler e tenho um cantinho só para mim, mas o corredor é sem dúvida o lugar eleito lá de casa.»
12 QUESTÕES PARA JÁCOME DE CASTRO
MMM – UMA CIDADE?
JC – Londres.
MMM – Um livro?
JC – Um só é pouco...
MMM – Um escritor português?
JC – Eça de Queiroz.
MMM – E um estrangeiro?
JC – Oscar Wilde, Jean d’Ormesson ou Agatha Christie.
MMM – Um disco?
JC – Uma mistura feita por mim onde não faltaria a música dos anos 60, 70 e 80 e onde teriam de entrar algumas músicas de Mozart.
MMM – Uma personalidade?
JC – Churchil, pela dedicação e determinação e por ter permitido aos aliados ganhar tempo para vencer a guerra. Para além de um grande político, um grande senhor.
MMM – Um filme?
JC – África Minha.
MMM – Um prato?
JC – Cozido à Portuguesa sem excessos.
MMM – Um sonho?
JC – Não sou supersticioso, mas prefiro não revelar...
MMM – Um restaurante?
JC – Tenho uma lista deles na minha agenda.
MMM – De que gosta mais?
JC – De viajar. Das coisas simples da vida, como beber um café e ler o jornal. De ter tempo para não fazer nada. De um bom restaurante. De um bom hotel. De conduzir devagar com as janelas abertas ao som de uma boa música numa estrada bonita. De ouvir e conversar com as pessoas. De ser médico. De um dia frio com céu azul. Dos meus amigos e da minha família. De saltar a cavalo. De jogar às cartas. De ler…
MMM – O que detesta mais?
JC – De pretensiosismo. Má educação. De atrasos. De indisciplina. De injustiça. De mediocridade (sobretudo quando é premiada). Do politicamente correcto…