Artigo de Saúde Pública®
Nº 56 / Fevereiro de 2007
02 Coração acelerado, risco cardiovascular aumentado?
Entrevista ao Professor Filipe Macedo
Enquanto o coração bater, pode considerar-se que ainda existe vida. Mas nem todas as pessoas conseguem manter este órgão vital sempre numa frequência regular. São alguns os problemas de saúde associados aos batimentos cardíacos acelerados que podem até ser considerados como um marcador de risco para as doenças que mais matam em Portugal – as cardiovasculares.
Não basta sentir o coração bater para se achar que tudo corre bem. É, pois, essencial perceber se os seus batimentos estão dentro dos valores normais, isto é, se não são nem muito lentos, nem muito acelerados. Sendo a frequência cardíaca (FC) o termo utilizado para descrever o número de batimentos cardíacos por minuto, quais são, então, os valores considerados normais?
«De uma maneira simples, considera-se a frequência cardíaca normal quando está compreendida entre os 60 e 80 batimentos por minuto (bpm) em repouso. Considera-se bradicardia (batimentos abaixo do normal) quando a FC é inferior aos 60 bpm e taquicardia (batimentos acelerados) quando a FC é superior a 100 bpm», responde o Prof. Filipe Macedo, chefe de serviço de Cardiologia no Hospital de S. João e professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
E de que forma podem ser contados os batimentos cardíacos? É muito simples: a palpação do pulso é a forma habitual de se medir a frequência cardíaca, mas é pela auscultação cardíaca que se pode obter uma percepção mais correcta dos batimentos do coração.
É normal, e não inspira cuidados, quando o coração bate com mais afinco depois de uma corrida ou de qualquer actividade que exige esforço. Como refere este especialista, «os batimentos cardíacos aumentam em resposta a uma variedade de estímulos, como o exercício físico, as situações de stress, a ansiedade, as alterações endócrinas, os estados febris, a anemia, etc.».
A questão que, legitimamente, surge é a de saber quando é que uma frequência cardíaca acelerada deve ser considerada preocupante e quando se torna necessário procurar ajuda médica. Segundo afirma Filipe Macedo, «sempre que o doente apresentar uma frequência cardíaca persistentemente mais elevada, deve-se ter em atenção situações como o stress ou as alterações endócrinas, para se poder ajuizar sobre a presença ou não de patologia».
Por outro lado, os batimentos cardíacos em repouso podem estar mais diminuídos (inferiores a 60 bpm), como acontece com os atletas em resultado do seu treino físico regular. «Esta situação não é nada preocupante e, antes pelo contrário, acarreta benefícios acrescidos», salienta o médico.
Aumento da FC e risco acrescido de mortalidade
No passado mês de Novembro, durante a última reunião da American Heart Association, foram apresentados os resultados de um estudo francês realizado no Hôpital Européen Georges Pompidou, INSERM, em Paris, que relacionam o aumento da frequência cardíaca (FC) em repouso com um risco acrescido de mortalidade.
Este estudo seguiu as variações nas frequências cardíacas de homens franceses com idade compreendida entre os 42 e os 53 anos, ao longo de um período de 20 anos. As conclusões indicam que o aumento a longo prazo da frequência cardíaca em repouso fez subir o risco de mortalidade por várias causas, incluindo a cardiovascular, em cerca de 50%, enquanto que a diminuição a longo prazo da FC reduziu este risco em cerca de 20%.
A frequência cardíaca em repouso, que é medida pelo número de batimentos por minuto (bpm), é um indicador do esforço do coração para manter uma circulação sanguínea adequada às necessidades do organismo. Vários estudos já tinham demonstrado que uma elevada FC em repouso está associada a um risco acrescido de mortalidade, mas este estudo francês é o primeiro a abordar o significado das alterações na FC em repouso ao longo dos anos.
Os investigadores verificaram que os indivíduos cuja frequência cardíaca em repouso aumentou mais de sete batimentos por minuto tiveram um aumento de mortalidade de 47%, enquanto que nos indivíduos cuja FC em repouso decresceu mais de sete bpm observou-se uma diminuição da mortalidade.
Segundo Xavier Jouven, o investigador principal deste estudo francês, «os médicos deveriam adoptar um método standard para medição da frequência cardíaca em repouso e seguir as suas variações ao longo do tempo, já que, até agora, tem sido subestimada enquanto indicador de saúde».
Exercício físico para «acalmar» o coração
É sabido que a prática regular de exercício físico é a melhor forma de baixar a frequência cardíaca em repouso. Mas atenção: as pessoas que não estão habituadas a praticar actividade física não devem começar a fazê-lo logo de forma intensiva.
«Os efeitos do exercício físico na frequência cardíaca resultam da modulação do sistema nervoso autónomo que ele determina: diminuição do tónus simpático e aumento do tónus parassimpático. Estes efeitos são, só por si, cardioprotectores, pois a inactividade física é reconhecida como um risco de doença cardiovascular», explica Filipe Macedo.
Ainda segundo o parecer deste especialista, «o exercício físico regular deve ser recomendado como uma medida de terapêutica preventiva em todos os grupos etários, porque contribui para diminuir a FC e porque melhora o fluxo coronário».
Por outro lado, o treino regular também contribui para alterar, favoravelmente, o metabolismo dos lipídios e dos carbohidratos; ajuda a tratar os factores de risco de aterosclerose, como a pressão arterial, a resistência à insulina, a intolerância à glicose ou as concentrações elevadas de triglicerídios e pode contribuir para o aumento do «bom colesterol» (HDL) e a diminuição do «mau colesterol» (LDL).
São diversas as modalidades de exercício físico recomendadas, desde que praticadas com regularidade, mas «deve dar-se preferência aos exercícios dinâmicos, tais como jogging, bicicleta, ténis, futebol, etc.». «O programa de exercício, em indivíduos com doença cardíaca, ou em idade madura/avançada, que não tenham o hábito de o praticar, deve ser alvo de prescrição médica quanto às modalidades, volume (quantidade) e intensidade», recomenda Filipe Macedo.
FC como marcador
de risco cardiovascular
Ao longo dos últimos anos, têm sido realizados alguns estudos epidemiológicos de grande escala que demonstraram existir uma correlação entre a frequência cardíaca (FC) em repouso elevada e a ocorrência de eventos cardiovasculares.
«A redução da frequência cardíaca representa um dos principais objectivos da terapêutica médica da doença coronária. O cronotropismo negativo reduz o consumo de oxigénio e aumenta o período de relaxamento ventricular, melhorando a perfusão coronária. Por outro lado, ao reduzir a FC minimiza a probabilidade de ocorrer ruptura da placa coronária, impedindo os eventos coronários agudos», confirma o Prof. Filipe Macedo.
Comentando o estudo francês divulgado no passado mês de Novembro, este médico acredita que o risco aumentado de mortalidade «pode estar associado a diferentes estilos de vida da população analisada ou a outros factores que contribuem para um agravamento do processo da aterosclerose», acrescentando que «este estudo veio comprovar, mais uma vez, o impacto que a FC tem no aumento da incidência da mortalidade cardiovascular».
Texto: Madalena Barbosa