Artigo de Saúde Pública®
Nº 90 / Abril de 2010
04 DOSSIÊ REUMATOLOGIANão vire as costas às doenças reumáticas
- Dr. Rui André
- Dr. Fernando Pimentel
- Dr.ª Viviana Tavares
- Prof.º Doutor João Eurico Fonseca
Existem centenas de doenças reumáticas (DR) que atingem mais frequentemente adultos, em qualquer fase da vida (e também crianças). A maioria destas doenças envolve, principalmente, articulações, tendões, músculos ou ossos. E, regra geral, são acompanhadas de dores (de maior ou menor intensidade). Segundo o Dr. Rui André, chefe de serviço de Reumatologia do Hospital Militar Principal e presidente da Sociedade Portuguesa de Reumatologia (SPR), «felizmente, a maior das situações é controlável».
O especialista explica que as DR podem dividir-se em dois grupos: degenerativas (em maior número) e inflamatórias (em menor número, mas potencialmente mais graves).
«As patologias de foro inflamatório podem conduzir rapidamente a um grave grau de invalidez, caso não haja um tratamento atempado e eficaz», esclarece.
Estima-se que um quarto da população, em determinado momento da sua vida, venha a desenvolver estas doenças. Uma das grandes causas para o elevado e crescente número de doentes reumáticos, apontada pelo presidente da SPR, é o facto de, «geração após geração», a população estar a envelhecer e a aumentar de peso. «Efectivamente, tudo faz prever que, nos próximos 20 ou 30 anos, o número de doentes com patologia reumática, sobretudo degenerativa, cresça ainda mais.»
Mas a obesidade não é o único factor de risco para as doenças reumáticas. «Os traumatismos, as alterações congénitas e da forma do esqueleto que deveriam ser precocemente tratadas, a prevenção das quedas, os medicamentos que podem alterar o equilíbrio, a falta de exercício físico e a má manutenção do aparelho locomotor são algumas das causas que estão na base destas doenças», refere Rui André.
O diagnóstico das DR é baseado, essencialmente, na história clínica e no exame das articulações afectadas. O pedido de alguns marcadores imunológicos de determinadas doenças é importante numa fase inicial de diagnóstico. «A radiologia convencional continua a ser fundamental, principalmente quando é coadjuvada com a ecografia e a ressonância do aparelho locomotor.»
Osteoartrose: a doença das articulações
A osteoartrose envolve toda a estrutura articular, afectando a cartilagem de revestimento, mas também o osso subjacente, a cápsula da articulação e a sinovial (a componente mais activa). «A cartilagem deixa de ser capaz de compensar as agressões e, portanto, fica mais estreita; o osso fica denso e com mais dificuldade em amortecer os impactos sobre a articulação», justifica o especialista.
E quais são as mais importantes causas da osteoartrose? A idade é o principal factor de risco para a osteoartrose, embora qualquer agressão «possa contribuir para danificar a articulação», diz, acrescentando: «Na maior parte das vezes, a causa é mecânica, porque se sobrecarregou uma articulação que não era perfeita ou, então, porque se terá utilizado normalmente uma articulação que já tinha problemas.»
«Qualquer articulação pode sofrer de osteoartrose.
Contudo, as mais atingidas são as dos joelhos, das ancas, dos dedos das mãos, do dedo grande do pé e algumas das localizações da coluna (particularmente, as regiões lombar e cervical)», indica Rui André.
Actualmente, existem três grandes componentes do tratamento da osteoartrose.
«Por um lado, o tratamento não-farmacológico,
que assenta, essencialmente, na Medicina Física e de Reabilitação. Já as técnicas cirúrgicas têm vindo a registar grandes avanços, com a substituição das articulações “estragadas” por próteses. O tratamento médico baseia-se na utilização de fármacos (analgésicos e anti-inflamatórios) com acção sobre os sintomas, e em fármacos que são prescritos com o objectivo de atrasar a progressão da doença», refere o reumatologista.
A coluna é que sofre…
A espondilite anquilosante afecta entre 0,1 e 1% da população caucasiana, a nível mundial. «É uma doença reumática inflamatória sistémica que atinge, predominantemente, o esqueleto axial, ou seja, a coluna e as articulações sacroilíacas, resultando na perda de mobilidade da coluna», explica o Dr. Fernando Pimentel, assistente de Reumatologia do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental (Hospital de Egas Moniz).
«Esta doença tem um elevado impacto em termos profissionais, pessoais e familiares. Os indivíduos com profissões fisicamente mais exigentes são as principais “vítimas” das limitações impostas pela doença», defende o reumatologista.
A espondilite anquilosante caracteriza-se pelo surgimento de dores nas costas, associadas à rigidez matinal prolongada da coluna, que diminui progressivamente de intensidade com início da actividade. Segundo Fernando Pimentel, estas dores são mais acentuadas em momentos de repouso, durante o dia ou a noite. «É habitual o doente acordar com dores durante o período nocturno, o que o obriga a levantar-se para aliviar a dor», acrescenta.
Para além do envolvimento músculoesquelético, pode haver ainda um compromisso sistémico. «Vários órgãos podem ser afectados, sendo o olho frequentemente atingido, com ocorrência de uveítes (inflamação do olho). Esta situação deve ser rapidamente diagnosticada e convenientemente tratada para que não ocorra uma diminuição da visão.»
«O diagnóstico continua a ser essencialmente clínico, não existindo nenhuma análise, em termos laboratoriais, que permita iagnosticar com exactidão esta doença», explica Fernando Pimentel. Uma vez que a origem deste problema ainda permanece uma «incógnita», os especialistas atribuem parte das «culpas» ao legado genético: «Há determinados marcadores que apontam para maior risco de desenvolvimento da espondilite anquilosante, em particular se já houver uma história familiar.»
Dado que, até ao momento, ainda não há cura para a espondilite anquilosante, os médicos concentram-se em aliviar os sintomas:
«O exercício físico, fármacos tradicionais como os anti-inflamatórios e os novos agentes biotecnológicos, utilizados de forma adequada, permitem melhorar a qualidade de vida destes doentes, conferindo-lhes uma vida social e profissional menos limitada.»
Ossos «duros» a valer
«A osteoporose é uma doença que provoca uma diminuição da resistência óssea, ou seja, um decréscimo da qualidade e da quantidade do osso. Em virtude desta fragilidade, há um risco aumentado de fracturas», explica a Dr.ª Viviana Tavares, assistente graduada de Reumatologia do Hospital de Garcia de Orta e presidente da Associação Nacional Contra a Osteoporose (APOROS).
O indivíduo atinge o pico de massa óssea entre os 25 e os 30 anos de idade. «A perda de massa óssea é algo inerente ao envelhecimento, embora varie de pessoa para pessoa», acentua a especialista. Os principais factores de risco relacionam-se com a alimentação (dieta pobre em cálcio e vitamina D), a história familiar (60-80% do nosso pico de massa óssea é determinado geneticamente), o consumo de tabaco, a menopausa precoce, o sedentarismo e o avanço da idade.
A osteoporose diagnostica-se através da densitometria óssea, «um exame que nos indica o valor da densidade mineral óssea», esclarece a reumatologista. Mas, alerta, «mais do que diagnosticar a situação, importa avaliar o risco de fractura, acautelando os factores que predispõem a que tal aconteça», adverte. «A ocorrência de uma fractura, particularmente a partir dos 45 anos de idade, representa um factor de risco acrescido de nova fractura osteoporótica.»
A prevenção da osteoporose deve começar desde tenra idade. «Uma boa alimentação, a ausência de hábitos nocivos como o tabagismo, o facto de não consumir bebidas alcoólicas em excesso e a prevenção das quedas são as principais medidas que se pode ter em termos de intervenção», indica Viviana Tavares.
Novas moléculas «revolucionam» a prática clínica
«A prática clínica actual da Reumatologia baseia-se no conceito de intervenção precoce, que envolve o diagnóstico atempado e a identificação de factores de mau prognóstico», refere o Prof. Doutor João Eurico Fonseca, assistente hospitalar de Reumatologia do Hospital de Santa Maria (HSM) e professor auxiliar de Reumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL).
De acordo com o especialista, «mesmo antes de os doentes se queixarem, já estão a ocorrer destruições articulares, tal como acontece com um tumor (cujos sintomas se manifestam, geralmente, já numa fase avançada), ou na doença coronária, em que enfarte é o reflexo do entupimento das artérias.
Há doentes que evoluem relativamente bem e não precisam de uma atitude terapêutica agressiva. Mas há casos em que temos de usar todo o arsenal terapêutico para que os doentes se sintam bem.»
Para o reumatologista, as novas moléculas, em paralelo com os métodos mais certeiros de diagnóstico, vieram revolucionar a área da Reumatologia:
«Nos últimos anos, surgiram inovações terapêuticas aplicáveis a todas as doenças reumáticas, embora o impacto seja mais elevado no tratamento das doenças reumáticas inflamatórias, em que se incluem, por exemplo, a artrite reumatóide, a artrite psoriática e a espondilite anquilosante.»
«As terapêuticas (biológicas) têm por base o esclarecimento dos mecanismos envolvidos nestas doenças. A biotecnologia permite a produção de anticorpos que interrompem os processos biológicos envolvidos nestas doenças», esclarece o especialista.
«A introdução destas terapêuticas permitiu tratar muitos doentes que não respondiam às terapêuticas convencionais e estabeleceu a indução da remissão destas doenças como o alvo terapêutico.»
Doenças reumáticas obrigam a mudar de vida
João Eurico Fonseca adverte que, em doenças reumáticas inflamatórias como a artrite reumatóide, espondilite anquilosante ou artrite psoriática, «os doentes afectados, quando não adequadamente tratados, têm uma incapacidade funcional progressiva que conduz à reforma antecipada, diminuição da qualidade de vida, dependência de terceiros para as actividades da vida diária, necessidade de cirurgias ortopédicas e aumento da frequência de outras doenças, como as patologias cardiovasculares».
Segundo este especialista em Reumatologia, os doentes com formas mais graves destas doenças têm uma redução da longevidade. «É fundamental a percepção de que o controlo adequado e precoce destas doenças permite evitar estas repercussões», alerta.
Texto: Susana Catarino Mendes