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Artigo de Saúde Pública®

Nº 91 / Maio de 2010






06 Nova solução terapêutica para mucosite oral
- Enf.ª Elsa Mourão
- Dr. Nuno Miranda
- Dr.ª Marisa Lobão
- Enf.ª Esperança Jarro
Os doentes submetidos a quimioterapia ou radioterapia contam, a partir de agora, com um novo produto contra a mucosite oral, uma das complicações dos tratamentos oncológicos. Esta solução de bochechar provou reduzir a dor, ao mesmo tempo que restaura a mucosa oral.


Já imaginou o que era ter uma afta gigante na boca? Talvez este seja o melhor exemplo para se entender o que é a mucosite oral. Embora possa variar de grau ligeiro (uma vermelhidão) até formas mais graves (com úlceras), esta lesão da mucosa oral, que resulta dos tratamentos oncológicos – a quimioterapia e a radioterapia –, acarreta imensos transtornos para o doente.

«Para além de provocar um desconforto significativo, implica a toma de analgésicos, com escalada eventual até à morfina no controlo eficaz da dor», afirma o Dr. Nuno Miranda, director clínico do Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa.

«Os doentes com tumores da cabeça e do pescoço, para os quais se utiliza frequentemente a radioterapia como terapêutica complementar ou única, são aqueles que registam um risco superior de desenvolver mucosite oral. E isto acontece porque a dose de radiação usada naquela zona vai danificar os tecidos da mucosa oral, ficando esta região mais vulnerável e inflamada», reitera o especialista.

Segundo a Dr.ª Marisa Lobão, especialista em Radioterapia do IPO do Porto, «quase cem por cento dos doentes com cancro da cabeça e do pescoço submetidos a radioterapia sofrem de mucosite oral». Trata-se de um «efeito secundário» que acontece durante o tratamento. E, «dependendo da gravidade, poderá conduzir à suspensão do mesmo», assegura.

Mas os doentes com cancro da cabeça e pescoço não são as únicas «vítimas» da mucosite oral.
Quem está a receber tratamentos de quimioterapia de alta dose também (independentemente da localização do tumor) tem um risco acrescido de sofrer de mucosite oral. Tudo depende da maior ou menor toxicidade dos fármacos.

«As doenças oncológicas diminuem as nossas defesas e aquilo que numa pessoa saudável parece um pequeno problema transforma-se numa situação grave neste grupo de doentes», diz Nuno Miranda. Numa situação de mucosite oral, para além da dor, os doentes apresentam dificuldades de deglutição. E, em casos extremos, esta complicação pode provocar uma restrição alimentar, obrigando os doentes a uma alimentação parentérica (a soro). Trata-se de uma situação com um elevado grau de
gravidade, já que «a manutenção de um bom estado nutricional é fundamental para a eficácia terapêutica da quimioterapia e radioterapia», fundamenta o especialista.


Uma nova solução para a mucosite oral

Em 2009, o IPO de Lisboa levou a cabo um estudo com Caphosol, que incluiu 10 doentes oncológicos da Unidade de Transplantes.

Após a utilização do Caphosol, a dose de morfina para alívio da dor da mucosite oral nestes doentes reduziu substancialmente», indica a Enf.ª Elsa Mourão, enfermeira chefe da Unidade de Transplante de Medula do IPO de Lisboa.

O tratamento com Caphosol foi iniciado no dia em que os doentes começaram a quimioterapia de alta dose, que precedeu o transplante de medula óssea.

«Este produto [o Caphosol] tem uma função preventiva da mucosite oral», adianta Elsa Mourão.

«Com o grupo de 10 doentes não tivemos as mucosites orais graves que havia antes do medicamento», corrobora.
Com a administração do Caphosol (solução de bochechar, quatro a 10 vezes por dia), «há um alívio da dor e a manutenção das glândulas salivares», evitando, assim, «a xerostomia (secura da boca), um sintoma muito frequente e desagradável experimentado pela grande maioria dos doentes», garante a enfermeira.

Com a utilização deste produto, «os doentes referem, ainda, uma sensação de frescura da boca». O Caphosol, para além de ser facilmente administrável, não tem sabor, o que facilita a toma. «Os outros produtos que existiam até à data para a higiene oral e tratamento da mucosite oral provocavam algum ardor, o que originava queixas por parte dos doentes. Esta nova solução tem a vantagem de não arder quando se bochecha a cavidade oral.»

Apesar de a experiência com o fármaco ter decorrido na Unidade de Transplantes do IPO de Lisboa, a enfermeira esclarece que esta solução oral poderá estar indicada para prevenir a mucosite oral provocada pelos tratamentos de quimioterapia e radioterapia.


Assegurar uma boa adesão aos tratamentos

Até há pouco tempo, a higiene oral, com a utilização de soluções desinfectantes, era a única medida profiláctica existente.

«Sabemos que quanto maior o grau de contaminação por bactérias agressivas maior o risco de mucosite oral. Neste sentido, a higiene eficaz da boca é uma forma de prevenir o aparecimento da mucosite oral. O estado de saúde dentária, antes do início da quimioterapia ou radioterapia, é por vezes muito deficiente. E nem sempre temos tempo para assegurar a correcção do problema antes do começo dos tratamentos», aponta Nuno Miranda.

Tão importante quanto a higiene oral é, ainda, o estado nutricional dos doentes. A mucosite oral, em casos mais extremos, pode comprometer os tratamentos oncológicos.

«Esta complicação condiciona o aporte nutricional e o equilíbrio necessário para se manter a eficácia da quimioterapia e da radioterapia.

Em nenhuma situação se consegue reverter a mucosite apenas com cuidados de higiene oral e com a garantia de um estado proteico equilibrado.

É preciso associar sempre uma medicação», explica a enfermeira Esperança Jarró, enfermeira-chefe dos Serviços do Hospital de Dia, Oncologia e Radioterapia nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC).

Nos tratamentos de radioterapia, devido à elevada probabilidade de os doentes sofrerem de mucosite oral, há uma preocupação com a profilaxia.

«Mesmo havendo um risco de mucosite oral, sabemos que com alguns cuidados orais esta complicação poderá surgir num grau que não impeça a continuação dos tratamentos», afiança Marisa Lobão. «O doente inicia imediatamente o
Caphosol no primeiro dia de radioterapia. Normalmente, começa com uma dose profiláctica de quatro ampolas, que depois poderá ser aumentada.» Segundo a especialista, os resultados com este produto têm sido animadores: «O Caphosol atenua a mucosite oral e impede que esta situação chegue a um nível tão grave que obrigue a interromper os tratamentos.»



Texto: Andreia Pereira
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